Clicks em matérias estúpidas criam obsessores

Posted on 8 de abril de 2010

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Em todo lugar tem gente reclamando de futilidade nos meios de informação. Reclamam da mídia, da tv, do “sistema que emburrece, aliena, manipula e comanda”, reclamam de programas “fúteis” e de “programas fúteis”. Porém, toda esta “futilidade” não é à toa, existe uma razão para que a mídia seja como é. Ninguém cria uma empresa de rádio, televisão, jornal e mídia em geral para arrecadar fundos para patrocinar o Coelho da Páscoa e o Papai Noel. O objetivo de uma rede de televisão, de uma rádio, de um jornal e da mídia em geral é ganhar dinheiro. Ganham dinheiro com publicidade e publicidade vem por audiência. Quanto mais gente assistir, ouvir ou ler o que a mídia divulga, mais dinheiro eles vão ganhar com publicidade e mais vão investir nisto.

A mídia vive de audiência e para isso eles dão aquilo que as pessoas querem consumir. Se fazem novelas é porque tem gente que assiste novelas. Se no momento das novelas todos trocassem de canal, a audiência diminuiria e eles teriam que fazer alguma outra coisa para readquirir o ibope que perderam. Como ninguém faz, continuam, pois estão tendo audiência, com isso tem publicidade e dinheiro. Agora, com a internet as pessoas passam menos tempo na tv e mais tempo no computador, então, falar “da tv que aliena” é bonito, todo mundo pode falar, como se isso lhe fizesse bem de pensar “não é comigo”. Entretanto, a mesma mídia que está na TV e no Rádio também está na internet. Ninguém se torna gênio por ligar um computador e ninguém se emburrece por ligar a TV. Depende do que se escolhe ter acesso.

As pessoas querem a todo custo colocar na cabeça de todo mundo que não existe ninguém melhor que ninguém e que todos são iguais, porém, elas mesmas se colocam abaixo das outras. Basta aparecer a fofoca que seja sobre alguém famoso e o circo começa. “Chefe de Estado tal olhou de lado para um mendigo”, “Jogador de futebol assume ter tal religião”, coisas assim são suficientes para grandes frenesis. Elas mesmas ao olhar algo assim já não imaginam que esta pessoa famosa é igual a elas, já as colocam em um pedestal de alguém que não pudesse errar. Pois pessoas comuns erram, se elas não aceitam que um famoso erre é porque vêem neste famoso um super-herói, um deus, um ser superior e alguém superior à elas mesmas. Se vêem inferiores aos famosos e depois querem fazer engolir goela abaixo que todos são iguais, mesmo que elas não se vejam assim.

Assim surgem as notícias que são realmente grandes desafios para tentar entender como alguém pode clicar em coisas assim. “Atriz da emissora tal é vista comendo churros na praia”, “Ator do filme tal confessa que usa cuecas amarelas”, “Apresentadora tal admite que sempre gostou de andar descalça”, “Jogador de futebol tal é encontrado em uma festa dançando sem camiseta”. É realmente difícil tentar imaginar o que leva alguém a clicar em coisas assim. Clicam nestas coisas estúpidas porque realmente acham que estas pessoas famosas são melhores que elas, senão não entrariam pois o que elas fazem é algo comum que todos fazem, mas, como é alguém famoso que faz, isso tem um atrativo maior. Não se preocupariam com coisas assim se fossem com anônimos.

Estas matérias são feitas porque as pessoas consomem isto. Compram isto. É por causa de pessoas que acessam coisas assim que existem pessoas que vivem atrás de matérias assim, que vivem atrás de gente famosa querendo tirar foto, xeretando a vida particular, fazendo um verdadeiro inferno da vida destas pessoas famosas, sendo verdadeiros obsessores. As pessoas clicam e compram matérias de fofocas sobre a vida particular de alguém, logo, existirão pessoas que invadirão a vida particular destas pessoas para ter aquilo que os outros irão consumir e assim aparece a obsessão e o que difere os “fúteis” dos “conscientes” é que os fúteis estão atrás de notícias de um tipo de pessoa e os “conscientes” atrás de notícias de outro tipo de pessoa. Enquanto o “fútil” consome a vida da atriz, do ator e do jogador de futebol, o “consciente” consome a vida do político, do chefe de Estado, do presidente, do escritor. No final é tudo a mesma coisa.

O ser humano possui um campo áurico e naturalmente ninguém gosta de se sentir invadido neste campo. Ninguém gosta de ter sua intimidade disposta, violada e invadida pelos outros. Todo mundo precisa de um tempo só, para fazer suas coisas, aproveitar um momento consigo mesmo e não ter ninguém atrás, urubuzando, mas, as mesmas pessoas que assim se sentem mal com estas coisas não pensam que quando ficam dando audiência, ibope e clicando em matérias estúpidas sobre fofocas estão fomentando a obsessão para com outras pessoas.

Não raro é ver famosos que sentindo seu espaço violado por estas pessoas acabam partindo para a agressão. Eles são pessoas comuns que têm necessidade de privacidade e espaço. Pessoas famosas precisam manter a imagem, cuidar da aparência, precisam parecer perfeitos em tudo, mas ninguém é perfeito. Vai ter uma hora que a pessoa vai estar de saco cheio de usar maquiagem, vai ter uma hora que a pessoa vai querer estar à vontade com a família, amigos e não dá pra ter uma sociedade que fica obsediando a vida de uma pessoa assim até mesmo em seus momentos mais privados, como ir ao mercado com uma criança e levá-la no carrinho, fazer um castelo de areia com o filho na praia, levar a namorada para o cinema e tudo o que uma pessoa comum faz.

Ninguém aguenta ter pessoas urubuzando o tempo todo, ainda mais com máquinas fotográficas atrás querendo invadir o seu espaço. Uma hora as pessoas perdem o controle, por isso se vê tantos famosos agredindo jornalistas e fotógrafos. Se você estivesse com sua família, em um momento íntimo, todo mundo na piscina, as mulheres todas despreocupadas com celulite e estrias, os homens despreocupados com a barriga, todo mundo à vontade e tivessem pessoas bisbilhotando e tirando fotos, iria gostar?

Existem muitas pessoas que a mídia já destruiu. Pessoas boas, que faziam o melhor de si, mas tiveram suas carreiras destruídas por boatos, invenções e manipulações da mídia. A mídia pega um fato e aumenta para fazer ter a roupagem que quer e sabe que as pessoas vão consumir. Para o povo, que como hienas atrás de carniça buscam por isso, é bacana. Eles querem. Mas para a pessoa famosa isto às vezes pode ser um verdadeiro inferno. É uma verdadeira obsessão.

Não há motivo para pensar que um famoso não erra. Eles são pessoas como qualquer um. Um famoso pode errar e pronto, a vida continua. Não existe coisa mais pobre de espírito do que mover esforços por causa de manchetes sensacionalistas sobre pessoas famosas. ”Presidente tal limpa a mão após cumprimentar um pobre”. Ora, ninguém mais no mundo faz isso? Por que motivo isso deve ser assunto? “Jogador de futebol tal não entra em prédio de determinada religião”. Ninguém mais no mundo faz isso? Todo mundo no mundo todo entra no templo de toda religião?

A não ser que achem que estas pessoas são deuses na Terra e que não podem errar, não há motivo para toda vez criar um circo por causa de uma coisa comum como estas. Porém, se por acaso, acharem que estas pessoas, jogadores de futebol, presidentes, atrizes, atores, são melhores que os outros para não que não possam fazer coisas que todos fazem o tempo todo, então não seria coerente que mudassem o discurso de que todos são iguais? Poderiam dizer então: “olha, todos são iguais, não existe ninguém melhor que ninguém, só os famosos, tá?”. Seria mais coerente com a conduta que vivem, pois é exatamente isto que fazem ao vivenciar tanto essas matérias estúpidas.

A menos que a pessoa seja maior que o ato, ao ver um anônimo cometer o mesmo ato que gerou toda a discussão com o famoso, deveriam criar o mesmo circo. Cada vez que soubessem de alguém que se recusou a ir em outro templo religioso deveriam fazer o mesmo circo que fazem ao ver que um jogador de futebol famoso também o fez. Cada vez que vissem alguém limpando a mão ao cumprimentar outrem, deveriam parar, armar o circo, pegar o microfone e falar sobre o ato demoníaco que ali ocorreu. Pois se as pessoas são todas iguais, o problema nunca está na pessoa, mas no ato. Um presidente limpar a mão ao cumprimentar um pobre deveria ter o mesmo peso de um agricultor, industriário ou comerciante que limpa a mão após cumprimentar um pobre e se assim não vêem, é porque não acham que todos são iguais.

Se o pessoal não anda assistindo muita TV, não importa, se continuarem os clicks em matérias estúpidas, de fofocas, de assuntos que não somam nada a ninguém, de coisas corriqueiras e comuns que fazem parte da vida de qualquer pessoa, este “sistema” irá continuar a perseguir estas pessoas e a fazer da vida delas um inferno e cada vez mais surgirão obsessores que ficarão atrás da vida dos outros. Criam obsessores ao incentivar este tipo de “matéria” através dos seus clicks e se tornam vampiros psíquicos a partir do momento que a vida de outros passa a interessar mais do que a própria.

 

 


 

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Posted in: Rudy Rafael